Nossa leitura devocional se segue por: Gênesis 44, Salmos 35 e Luas 24. 13-53.
Os anos de
2005 e 2006, foram tempos muito difíceis para mim. Tive grandes perdas, doenças, enfim problemas gerais que me desequilibraram. O interessante é que, bem no começo, um amigo, que sofreu comigo, me disse: “Tenha paciência! As dores fortes vão passar, mas demora um
pouco para que isso ocorra. Mas, não desanime, pois a crise vai passar”. Ele
tinha razão e eu sabia disso desde a primeira vez em que me falou tais palavras.
Não duvidei dele em nenhum momento. Entretanto, a espera, apesar da certeza, foi
dolorida e me trouxe um enorme sofrimento.
Davi, o grande
salmista, atravessou uma situação parecida, não exatamente de doença, mas em
termos de sofrimento incessante. O Salmo 35, diferente do anterior, nos
mostra Davi em um momento de angústia, sem, contudo, ver a resposta de Deus às
suas orações. O problema não era a falta de esperança do salmista. Ele, na
verdade, demonstra ter certeza de que Deus o livrará. Entretanto, não havia
chegado o momento de ser aliviado da tristeza e do perigo. Isso fez com que o
salmo apresentasse três situações de sofrimento duradouro e o devido
encorajamento aos servos de Deus por meio da esperança do livramento no momento
correto, escolhido assim pelo Senhor.
A primeira das
situações que são frequentemente duradouras e que causam pesar nos servos de
Deus é a oposição dos adversários (vv.1-10). Nos
vv.1-3 Davi pede a Deus que lhe proteja dos inimigos na medida
necessária a fim de livrá-lo e de punir os que lhe atacam sem motivo. Uma
pergunta importante de se fazer diante disso é “quem são eles?”. Davi não cita
seus nomes ou títulos. Em vez disso, Davi descreve-os em sua atividade
opositora. A confiança do salmista no v.4 dá início a tal descrição.
Diz ele: “Baterão em retirada e serão derrotados aqueles que planejam o meu mal”. Trata-se
de pessoas que arquitetavam modos de prejudicar Davi. A sutileza e a
periculosidade de tais projetos são transmitidas pelo salmista (v.7) ao
escrever sobre o objetivo dos adversários contra ele: “Pois sem motivos
esconderam armadilhas para mim”. Traiçoeiramente,
os adversários de Davi pensavam em modos de fazê-lo cair em uma armadilha. É a
figura de uma caçada em que os opositores fazem o papel de predadores. Assim
como caçadores de verdade, eles armam emboscadas para pegar de surpresa a vítima
indefesa. É uma atitude desonesta e maldosa. A vítima, além de não poder se
defender da armadilha, nem imagina que ela existe, pois tudo é feito às escuras,
já que Davi, falando do inimigo (v.8), se refere às “suas redes às
quais esconderam” . É a mesma ideia da caça, com
ênfase na traição oculta.
A segunda
situação é a falsidade das pessoas próximas
(vv.11-18). Quem dera os inimigos fossem seus únicos motivos de
desgosto! Davi, agora, apresenta o sofrimento pessoal que teve como fonte
pessoas a quem ele chamou (v.11) de “testemunhas da injustiça” ou de
“testemunhas da violência”. Até aí, não há surpresas.
Contudo, o v.12 introduz um elemento que, sim, nos surpreende.
Tratava-se de pessoas a quem Davi havia beneficiado. Em troca, eles foram
traidores e malévolos: “Eles me retribuem o mal em lugar do bem”. É revoltante!
Davi foi bondoso com tais homens que, agora, são testemunhas mentirosas e
malvadas contra ele. Isso piora quando Davi explica melhor seu procedimento
bondoso para com eles no passado (v.14): “Eu agia como se eles fossem
amigos ou irmãos para mim”. Muita gente tem companheiros tão chegados que são como
familiares. Assim eram tais homens para Davi. Apesar disso, diz o salmista
(v.15): “Mas, na minha queda, eles se alegraram e se ajuntaram; se
ajuntaram contra mim”. Dá até para ouvir o grupo reunido rindo de Davi e expondo
como cada um trabalhou em prol da sua queda quando ele de nada desconfiava. São
risos que dão nojo nos homens justos. Olhar para esse tipo de ajuntamento
injusto e traidor realmente desanima qualquer um.
A terceira é a
provocação arrogante (vv.19-28). Nesse ponto, Davi ora
ao Senhor pedindo que os impeça de agir conforme o mal que pretendem. É sob esse
prisma que percebemos suas atitudes. Davi diz (v.19) que tais homens
“piscam os olhos”. A palavra traduzida por
“piscar” tem uma forte conotação de uma atitude maliciosa. Trata-se de um sinal
com os olhos que transmite arrogância e maldade contra seu alvo. Eles também
zombavam e tripudiavam a respeito da situação difícil de Davi (v.21):
“Alargam suas bocas contra mim dizendo: Aha! Aha!”. A interjeição aha é
uma onomatopeia – figura de linguagem que expressa sons como “pocotó” ou
tique-taque – que simboliza “risos” ou “gargalhadas”. Representa a exultação
aberta por verem o mal do salmista. O sonho desses homens era ver chegar o dia
em que pudessem alegremente dizer (v.25): “Nós o aniquilamos”. Temos de ser sinceros: é difícil conviver com uma
situação como essa. Quanto tempo suportaríamos maus tratos e provocações assim?
Em quanto tempo desistiríamos de tudo ou abandonaríamos o bem partindo para a
briga com homens maus, ingratos e arrogantes como os tais?
Entretanto,
apesar do estado duradouro desses males, Davi revela seu sofrimento, mas não seu
abandono da esperança de ver dias melhores modelados pelas mãos do Senhor
eterno. O salmista, que ainda não viu seu livramento, nem a derrocada dos
inimigos, não tem dúvida de que ocorrerão. Ele conhece o Senhor e sabe que tipo
de cuidado amoroso ele tem para com os seus. Assim, mesmo que o tempo de Deus
não coincida sempre com a pressa do servo de se ver imediatamente livre das
pressões, Davi sabe que chegará o dia em que o Senhor o livrará e lhe dará a
alegria que se esvaiu diante das circunstâncias. Essa esperança faz com que o
salmista declare, do meio do turbilhão, como será seu regozijo naquele dia
(v.9): “E a minha alma se alegrará no Senhor e regozijará na sua
salvação”. É muito
interessante ver como, ao mesmo tempo, tal certeza produz uma esperança futura e
um consolo presente. Por causa dessa esperança é que, depois de sofrer por tanto
tempo, Davi persiste em se manter na justiça e no serviço do Senhor, inclusive,
louvando-o por meio desse salmo.
Como Davi não foi
o único a carregar problemas duradouros, essa mensagem é de especial aplicação e
atualidade para nós mesmos. Nós também nos cansamos de sofrer injustiça. Também
ficamos desanimados ao tratar bem pessoas que nos retribuem com o mal.
Infelizmente, também somos, por vezes, alvo das chacotas e das provocações
arrogantes de outros. Pois é exatamente nesses momentos que nossa fé no Senhor
deve ser redobrada e nos fazer lembrar de tudo que ele nos fez e das coisas que
ainda nos fará. É nessas horas que a esperança cristã nos deve dar novo fôlego
e, por pura fé, nos fazer regozijar no Senhor pela libertação que ele ainda não
produziu. Independente dos detalhes dos planos de Deus para nós, sabemos que o
resumo deles é que ele cuidará dos nossos dias com todo seu amor até nos receber
no eterno lar, onde jamais sofreremos injustiça ou qualquer outro tipo de mal.
Portanto, lembre-se: “Tenha paciência! As dores fortes vão passar. E mesmo que
demorem um pouco para que isso ocorra, não desanime, pois a crise vai
passar”.
É isto, ... que possamos permanecer firme no caminho do Senhor e certos de que Ele tem o melhor para nós e que a crise logo passará. Que Deus abençoe mais esta semana, e que tudo que fizermos seja para honrá-lo e engrandecê-lo.
Graciele Teles Lima
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